Brasil
'Não durmo desde que perdi meu filho', diz pai
27 Julho de 2010 às 13h00
O técnico de manutenção Francisco das Chagas de Oliveira, 37 anos, pai do adolescente Bruce Cristian, 14 anos, morto por um policial militar no domingo (25), disse ao G1 que ainda não conseguiu dormir desde que viu o corpo do filho caído no asfalto de um cruzamento em Fortaleza. "Espero que a morte de meu filho não seja em vão e que as autoridades acordem para o problema da segurança. Eu e minha família ainda não conseguimos dormir. Eu perdi um filho maravilhoso, que adorava a família e encontrar com os amigos na igreja", afirmou o pai de Cristian.
O menino foi baleado na cabeça quando estava na garupa da motocicleta do pai. Os dois seguiam para casa. Cristian foi sepultado na tarde desta segunda-feira (26), em Pacatuba (CE).
Chagas disse que recebeu uma visita de representantes da ouvidoria da Polícia Militar do Ceará e de um comandante do policiamento de Fortaleza na noite desta segunda-feira (26). "Eles tentaram explicar o inexplicável, disseram que foi um caso lamentável e se colocaram à disposição para me ajudar, mas não explicaram que tipo de ajuda estavam me oferecendo. O fato é que não terei meu filho de volta."
O pai do adolescente disse ainda que está tendo de encontrar forças para tentar apoiar a família. "Minha mulher não está bem. Meus dois filhos, uma menina de 13 anos e um menino de 8 anos, também estão sofrendo muito. Tenho medo de que o lado psicológico de meus filhos fique abalado demais. Estou fazendo o melhor que posso para cuidar deles, mas está sendo muito difícil."
Chagas disse que pretende guardar todos os objetos pessoais do filho. "Vou deixar tudo que é dele do jeito que está. Quero guardar as coisas dele por todo tempo que eu conseguir. Ainda lembro muito do que aconteceu, mas quero manter as lembranças de meu filho. Depois, dependendo de como o tempo vai passar, vou decidir de coloco alguma coisa para doação."
Falha policial
A Secretaria de Segurança Pública do Ceará reconheceu falhas na abordagem policial feita no domingo, que resultou na morte do adolescente. O policial suspeito de atirar no garoto foi afastado das ruas e um processo administrativo foi instaurado para apurar o ocorrido. "Todos têm culpa pelo que ocorreu com meu filho. Desde o policial que atirou, até o comando da corporação dele e o governo do Estado do Ceará. Espero Justiça", disse o pai do adolescente morto.
"A pessoa que aponta a arma pelas costas para um ser humano, para uma criança, e atira, é um bandido. Que polícia preparada é essa? Que treinamento é esse?", disse Chagas, durante o velório do filho.
O coronel Joel Brasil, secretário executivo de Segurança Pública do Ceará, disse que abriu um procedimento disciplinar para apurar o ocorrido. "Falar que é lamentável é pouco diante da vida de uma criança. Ninguém está feliz com o que aconteceu. Foi uma abordagem infeliz."
Segundo a Polícia Militar, o soldado sinalizou para a moto parar. O pai do adolescente disse que não ouviu o chamado. O policial suspeito de atirar tem 25 anos, foi afastado das funções e pode responder por homicídio.
Em depoimento à polícia, o soldado teria dito que o tiro foi acidental e que só depois percebeu que havia atingido alguém. "A doutrina do sistema policial não indica o uso da arma para tirar uma vida. A arma só deve ser usada em último caso", disse Brasil.
G1
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